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Dr. Moustafa Mould, ex-judeu, EUA (parte 5 de 5)

1083 2015/02/14 2021/04/13

A primeira coisa que notei foi o murmúrio de muitas vozes de homens lendo o Alcorão, enquanto esperavam pelo imame (líder da congregação) dar a khutbah.  Fui instantaneamente transportado em minha mente para a antiga sinagoga e os sussurros idênticos de homens idosos lendo dos Salmos (Zabur) no início das orações da manhã.  Deu-me um sentimento confortante de nostalgia.  Um pouco depois, caminhando na outra direção, podia ouvir o imame recitando a surata.  Soava muito parecido com as leituras do Torá das quais desfrutava nas manhãs de sábado, mais uma vez confortante e nostálgico.  Não que isso tenha me feito querer retornar para qualquer sinagoga. Ao contrário, fez o Islã mais confortável e familiar para mim.


Sou um linguista e tinha sido especialista em pesquisa de campo.  Encontrei um livro para aprender o idioma somali e contratei um tutor para mim, que era melhor como amigo do que como professor.  Rapidamente aprendi as saudações, substantivos comuns, verbos, termos de parentesco, números e as horas.  Parte do vocabulário, emprestado do árabe, era como o suaíli e o hebraico.  O somali também era relacionado de forma bem distante às línguas semitas.  A gramática era diferente, entretanto. Muito difícil de captar e quando fiquei mais ocupado e cansado com o trabalho, nossas lições se transformaram mais em conversas sobre cultura, política e religião.  Ele tinha conhecimento suficiente para distinguir entre o Islã genuíno e alguns aspectos dominantes da cultura pré-islâmica nativa e supersticiosa que havia me incomodado.


Logo ofereceu para trazer um sheik à minha casa para que eu pudesse professar a shahada.  Apesar de tudo ainda me sentia hesitante, pensando em minha família.  Mas estavam a milhares de milhas de distância e eu estava vivendo confortavelmente em uma sociedade muçulmana.  Tinha bons amigos e colegas e estava claro para mim que muito da bondade deles era devida ao Islã.  Pedi a ele para trazer o sheik e ele o fez.  Ele me perguntou sobre minhas crenças, disse a ele que tinha sido judeu, não cristão (sem problemas com a trindade) e que há muito tempo tinha largado o porco, álcool, jogo e zina e depois que ele estava convencido de que eu entendia o que estava prestes a dizer e sabia os cinco pilares, declarei a shahada.  Minha noiva havia sugerido o nome Mustafa, do qual gostei muito.


Depois de toda a hesitação e procrastinação senti um alívio enorme e restaurei o senso de pertencimento que tinha perdido mais do que havia percebido.  Todos os meus amigos somalis estavam, claro, muito contentes e me deram muito apoio.  Começaram a me chamar de seedi ("cunhado").  Assim que consegui escapar comprei algumas joias de ouro e voei para Nairóbi.  Para me casar tinha que ir ao escritório do qadi chefe e declarar a shahada de novo diante de algumas testemunhas, para obter um certificado oficial de conversão, já que não havia isso na Somália.


Fomos ao qadi e fizemos nosso nikah.  Em alguns dias tinha que voar de volta para Mogadício para continuar meu trabalho.  Menos de um ano depois, aos 43, fiquei cheio de alegria e fui abençoado por Deus ao me tornar pai de um maravilhoso menino muçulmano.  Voei para Nairóbi e após uma breve discussão concordamos com a sugestão de minha esposa para um nome.  Agora eu até tinha uma kunya (apelido). Era Abu Khalid e ele recebeu o nome em homenagem ao grande companheiro, Khalid Ibn Al-Walid, que Allah esteja satisfeito com ele.


Você provavelmente está se perguntando se contei à minha família sobre minha conversão ao Islã e a resposta é não, por um bom tempo.  É claro que contei à minha família sobre meu casamento e eles não ficaram nem surpresos ou zangados.


Era um homem de meia-idade que devia saber o que estava fazendo e estavam felizes por minha felicidade.  Quando Khalid nasceu ficaram encantados de forma positiva e estavam ansiosos para encontrá-lo e à mãe dele. Quando Khalid estava com pouco mais de um ano, fui para Boston em minhas férias e levei minha esposa e filho comigo.  Os dois meninos, Ali e Yusuf, estavam fora em um internato muçulmano no nordeste do Quênia.


A recepção foi calorosa e adorável já que todos queriam que tivéssemos uma grande visita.  Não há dúvida de que um bebê, especialmente um neto, tem um efeito muito salutar e benéfico sobre as pessoas.  Minha esposa tinha trazido pequenos presentes para minha mãe, irmã e tias e todas tinham pequenos presentes para ela.  Suponho que todos presumira, como eu havia feito, que o muçulmano pode se casar com um judeu ou cristão.  Sabiam que minha esposa e nossos filhos eram muçulmanos e que Khalid estava sendo educado como muçulmano e não tinham problemas com isso.  Sabiam que eu não tinha sido um judeu praticamente por quase trinta anos e havia me casado com uma não judia antes.  Tinha decidido que se perguntassem eu não mentiria e se não perguntassem eu esperaria por um momento mais oportuno - alguma outra hora.  Alguns anos atrás finalmente me perguntaram e contei a eles.  Não posso dizer que ficaram satisfeitos, mas também não ficaram surpresos, zangados ou frios comigo e continuamos a ter relações calorosas e amáveis.


Outro ano, outro contrato se foi e então perdi meu emprego.  Como o novo faraó "que não conhecia José", chegou um novo diretor que não viu valor nos programas de inglês e decidiu terminá-los. De certa forma já esperava e tinha me inscrito para um emprego semelhante no Iêmen e, por isso, não lutei muito. Mas no fim o emprego em Sana não foi adiante e, como minha família havia predito, estava de volta à estaca zero - bem, não exatamente.


Em 1988 deixei minha família em Nairóbi e retornei para os EUA sozinho e sem emprego.  Novamente foi muito difícil (inverno, também), mas dessa vez tinha algumas economias, novas habilidades e um currículo mais forte. Sabia como conseguir um emprego, conhecia Washington e tinha alguns contatos.  Ainda tinha o terno.  O melhor de tudo, tinha minha fé, ao invés de antidepressivos.  Rapidamente consegui dois empregos part-time como professor e um emprego em uma loja para homens.  Os empregos como professor não foram adiante e vendi ternos em tempo integral por mais de três anos, sempre procurando um emprego melhor, mas finalmente - levou dois anos - consegui trazer minha família e fizemos o melhor, confiando em Deus.


Então, quatro anos atrás um vizinho muçulmano nos contou sobre um novo instituto islâmico que tinha sido aberto recentemente e que estava procurando por um professor de inglês.  Liguei imediatamente, marquei uma reunião e encontrei o diretor.  Pela graça de Deus fui contratado para ensinar parte da equipe e fazer algum trabalho editorial.  Ironicamente agora estou em um cubículo em um escritório sem janelas no norte da Virgínia, mas que diferença! Estou em um ambiente islâmico, cercado e inspirado por bons irmãos muçulmanos, muitos deles excelentes sábios. Amo e respeito muito todos eles e com eles aprendo diariamente.  E qual é meu emprego? Ler livros sobre o Islã, editar manuscritos sobre o Islã, escrever sobre o que li.  Em essência, estou sendo pago para estudar o Alcorão, Hadith, aqidah, Fiqh, Sirah, história islâmica e árabe.  Agradeço e louvo a Deus todos os dias por me levar para o islã e por me cobrir com todas essas bênçãos.  Alhamdulillah Rabbil-alamin.

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